Depoimento de Daniel Vorcaro à PF: assista à íntegra e leia a transcrição completa
Em depoimento à Polícia Federal, o empresário Daniel Vorcaro nega fraudes na venda de carteiras de crédito ao BRB, contesta laudos periciais e afirma que ativos foram substituídos de boa-fé
Depoimento de Daniel Vorcaro à PF foi marcado por tentativa de explicar fraudes Foto: Reprodução/ND Mais Em depoimento prestado à Polícia Federal, no dia 15 de outubro, no âmbito das investigações sobre operações financeiras entre o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB), o ex-banqueiro Daniel Vorcaro negou categoricamente a prática de fraude ou a comercialização de carteiras de crédito inexistentes vinculadas à empresa Tirreno.
Interrogado sobre laudos periciais que apontam fragilidades operacionais e ausência de capacidade financeira da empresa originadora, Vorcaro sustentou que a Tirreno atuava apenas como intermediária de crédito e argumentou que eventuais inconsistências foram sanadas com a substituição de ativos próprios entregues ao BRB, garantindo que não houve prejuízo financeiro às instituições ou a clientes.
Durante o interrogatório, a autoridade policial da PF confrontou o investigado sobre a internalização das bases de dados sem a devida verificação de lastro e a existência de baixas contábeis bilionárias registradas pelo BRB.
Depoimento Daniel Vorcaro do dia 15 de outubro se tornou públicoFoto: UOL/PF/Reprodução/ND MaisQual a acusação contra Daniel Vorcaro
Daniel Vorcaro é acusado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público de articular um esquema de fraude financeira envolvendo a comercialização de cerca de R$ 12 bilhões em carteiras de crédito inexistentes do Banco Master para o Banco de Brasília (BRB), intermediadas por uma empresa de fachada sem capacidade operativa, conduta que teria gerado um prejuízo contábil estimado em R$ 2,2 bilhões ao banco público e desencadeado apurações por crimes contra o sistema financeiro e gestão fraudulenta.
Transcrição do depoimento de Daniel Vorcaro
A transcrição na íntegra deste depoimento foi realizada com o auxílio de tecnologia de inteligência artificial, garantindo a precisão no registro áudio a texto. O texto passou por uma revisão editorial posterior para organizar o fluxo de diálogos e atribuir corretamente as falas entre o investigado, a autoridade policial e a defesa.
- Autoridade da PF: Ô Daniel, o senhor gostaria de fazer alguma introdução, alguma contextualização, tanto das conversas que estão no telefone do senhor, quanto em relação aos apartamentos que foram oferecidos pro senhor Paulo Henrique?
- Daniel Vorcaro: Eu prefiro falar no final.
- Autoridade da PF: O senhor prefere falar no final? É, então eu vou seguir aqui.
- Daniel Vorcaro: É ter um tempinho ao final para eu falar, tá?
- Autoridade da PF: Então eu vou seguir aqui. Eu vou abrir o laudo, professor, o senhor já deve ter tido contato aqui com esse laudo, tá? Relativo a esse laudo 315, né? Abrir aqui também para o Henrique. E esse laudo ele traz conclusões muito específicas sobre a Tirreno, né? Ele contesta tanto a capacidade econômica da empresa, quanto os próprios contratos, os 28 instrumentos particulares de cessão foram assinados em tese como cessão para o Banco Master. Ele faz uma análise das planilhas, né, do conteúdo, dos números de contrato, número que você pede, datas de nascimento, etc. E aí o que se conclui é que a Tirreno, de fato, ela não teria nem capacidade operacional e financeira para produzir essa quantidade de créditos que em tese teriam sido cedidos pro senhor. O que que o senhor pensa sobre isso?
- Daniel Vorcaro: A gente teve o primeiro encontro em 30/12, né? E eu fico primeiro feliz de poder estar novamente estar aqui podendo esclarecer essas questões. Eu vi bastante coisa que veio sendo inserida no processo: as perícias, as conversas e tudo que tem no processo. Ele converge integralmente com aquilo que eu falei, claro, em dezembro, integralmente. Novamente, a Tirreno nunca neguei em qualquer momento que a Tirreno era uma empresa nova criada, assim como várias outras empresas que faziam a comercialização de créditos pro Banco Master. Tinha centenas de empresas, mas essas empresas eram intermediárias de crédito. Ou seja, o banco não corria o risco ou não fazia o negócio que dependia da situação financeira da contraparte originadora; ela é só uma intermediária, é um corretor, um promotor de crédito.
- Então, esses laudos convergem sim para aquilo que a gente já havia dito: que realmente era uma empresa nova, criada por uma pessoa que já era parceiro do banco com uma outra empresa. E, assim como vários promotores, eles conseguem sim, mesmo não tendo capacidade econômica própria, eles têm força de venda ou parceiros ou terceiros que produzem crédito. Então essa sempre foi a especificação e a realidade das empresas promotoras de crédito lá com o banco. Tem empresas que são bem-sucedidas e têm um pouco mais de patrimônio, empresas que não. As análises do banco são em cima do crédito final, certo?
- Autoridade da PF: Então a gente tá na mesma página que os créditos, as carteiras, não existiam? As carteiras da Tirreno…
- Daniel Vorcaro: Novamente, vamos lá. Primeiro, até agradeço de vocês terem vindo aqui presencialmente. Tô há um ano… vai fazer um ano que eu tô preso por desse processo, um ano. E novamente eu venho aqui esclarecer que essa transação com a Tirreno com o BRB, ela não ocorreu. Ela simplesmente não ocorreu. Agora, uma promessa de transação que foi feita com a Tirreno, uma promessa de transação feita com o BRB que no final foi substituída por outros negócios. Não sei se a doutora lembra, em 30/12 eu estava ali sendo acusado de ter criado um rombo de 12 bi. Hoje já ficou claro que isso não existe, não tem esse rombo. Por quê? Porque não teve as carteiras da Tirreno. Elas não foram comercializadas, elas foram substituídas, foram devolvidas, o dinheiro devolvido pro BRB e a transação foi feita por outros ativos, esses que estão lá no registro no Banco Central de 2.2 bi em decorrência das carteiras. Existe um fato relevante publicado, né, de 8 bilhões para salvar praticamente o banco público e já existe fato relevante do BRB…
- Autoridade da PF: Mas aconteceu efetivamente… o que aconteceu efetivamente foi uma negociação de carteiras inexistentes. É isso que a gente tá partindo do mesmo pressuposto aqui: as carteiras não existiam e os senhores… essas carteiras da Tirreno foram cedidas pro BRB. Por que que existem lá 12 bi… Na verdade existe até mais hoje lá no BRB, que é onde a gente tem uma disputa cível. Da onde que veio esses ativos? A avaliação dos ativos a gente ainda não teve acesso. O ponto que nós… que a gente precisa discutir hoje é a comercialização de ativos inexistentes…
- Daniel Vorcaro: Que não aconteceu!
- Autoridade da PF: Por quê? E aí, segundo o Banco Central, né? Banco Central… E a explicação que eu obtive, foi até uma explicação lúdica, é que um banco, uma instituição financeira, por exemplo a do senhor, ao adquirir uma carteira financeira da Tirreno, etc., de qualquer outra empresa/banco, deveria fazer uma avaliação. É como se estivessem te vendendo uma jóia. E pela estrutura, o arcabouço normativo prudencial que existe no Brasil, essa avaliação é uma responsabilidade do próprio banco, da própria instituição financeira. Tanto que no primeiro depoimento o senhor… eu pergunto isso claramente pro senhor: “Foi realizado qualquer tipo de governança, de procedimento de governança?” O senhor responde que sim, mas em tese o que a gente viu aqui é que as carteiras foram internalizadas no sistema. O senhor recebeu uma base de dados, ela foi tratada pelas conversas que a gente obteve não só do celular do senhor, mas também do seu sócio, né? A gente vê que nem naquele momento era tratado como Tirreno, né? Elas são internalizadas no banco do senhor e em seguida são cedidas. Então assim, a gente tá falando de carteiras que não existiam, que foram internalizadas no seu sistema. O senhor concorda comigo?
- Daniel Vorcaro: Nenhum. Não tem como concordar porque esse negócio não foi realizado. Ele foi um negócio que…
- Autoridade da PF: E os contratos de cessão assinados pelos seus diretores em tese, né? Representantes da Tirreno?
- Daniel Vorcaro: Eles não existiram porque aqui o pular foi feito deles aos demais contratos da transação. Eu tive acesso aos contratos que foram das sessões, que assim, aparentemente existiram contratos de cessão que foram encaminhados ao Banco Central.
- Autoridade da PF: Sim, mas o senhor teve acesso aos outros contratos doação?
- Daniel Vorcaro: Não, não. Eles estão no processo.
- Autoridade da PF: Que contratos que o senhor tá falando?
- Daniel Vorcaro: Tem contratos para análise de documentos, tem trocado contratos de substituição, tem contratos de montantes absurdos. Não tem como a gente analisar o negócio só por uma parte dele, tem que analisar ele por um todo.
- Autoridade da PF: Bom, mas o que tá no laudo é que o senhor cedeu aquelas planilhas todas. E quando foi verificado dentro do sistema do Banco Master, aqueles contratos — esses contratos que a gente tá falando que não existem — estão dentro do sistema do banco do senhor. Eles não estão lá porque foram substituídos, não. Mas o que a gente tá tratando aqui é de uma obrigação normativa que o banco do senhor teria para comprar uma carteira de crédito e ceder.
- Daniel Vorcaro: Então o erro foi uma questão normativa que eu achei que eu estava sendo acusado por fraude. A fraude precisa de alguém…
- Autoridade da PF: Ah, tá. Mas a fraude… se tem alguém perto…
- Daniel Vorcaro: Sim, mas tá…
- Autoridade da PF: Mas o sistema tá exatamente… a gente vai entrar nessa parte da vítima e aí o senhor também vai poder explicar, né? Eu vejo que aqui tem uma série de simbioses do senhor com o Paulo Henrique, que ele mesmo fica te pedindo: “Não, não faz assim que eu não tenho como dar explicação, tenho que dar menos explicação aqui dentro”. Em tese, todas as conversas…
- Daniel Vorcaro: Todas as conversas foram de foro comercial normal de um presidente, tá?
- Autoridade da PF: Tá, mas o que a gente tá discutindo aqui é a fraude financeira que foi detectada lá atrás pelo Banco Central, né? E aquela que a gente tá discutindo aqui é uma cessão de créditos inexistentes, só pra gente ficar na mesma página aqui. O que aconteceu depois, na sua opinião, gerou dois… que hoje a gente já sabe que gerou 2.2 bilhões de prejuízo…
- Daniel Vorcaro: Mas não é 12, é 2.2 bilhões. Até agora eu sendo acusado de 12…
- Autoridade da PF: É, mas exatamente. Mas porque a negociação foi de 12. 2.2 bilhões de créditos inexistentes é o que a gente tem até agora. E se foi de 12, por que que tem… É porque a gente ainda não teve acesso à avaliação. Por isso, depois de um ano, tá no início…
- Daniel Vorcaro: Não, já tá pronta a avaliação. A questão toda é que o ministro ainda não autorizou… tentar ajudar toda essa discussão da operação.
- Advogado de Defesa: Não sei se vossa excelência sabe que tem uma demanda cível paralela. Inclusive vai ser juntado um laudo que mostra que, ao contrário de ter prejuízo, teve na verdade foi lucro. Porque o credor de toda esta operação é o Banco Master. O Banco Master deu mais dinheiro, então não ficou devedor de nada.
- Autoridade da PF: Eu entendo, mas a gente não tá falando na seara cível.
- Advogado de Defesa: Tem relação direta…
- Autoridade da PF: Tem relação direta, mas a gente tá falando de uma avaliação que foi feita dentro do próprio BRB por uma determinação judicial e que de fato a gente ainda não tem o resultado. O que a gente sabe é que já tem 2.2 bi de prejuízos contabilizados e baixados em decorrência disso no BRB, e eles supostamente avaliaram o possível. Então a gente tá na mesma página de que os créditos não existiam e… Exato. Então não existiam, mas o senhor comercializou eles com o BRB.
- Daniel Vorcaro: Doutora, eu vou te dizer uma coisa…
- Autoridade da PF: Não é assim, a questão não é se o senhor substituiu. O que eu tô perguntando pro senhor é se o senhor comercializou. Porque aqueles contratos aqui o senhor comercializou.
- Daniel Vorcaro: Pergunta diferente. A gente fez um acordo comercial. Sim. Agora, quando a doutora diz que os créditos não existiam, eu não posso afirmar isso em momento nenhum.
- Autoridade da PF: O laudo… Tem dois laudos. Tem um que fala por amostragem que de fato a operação era completamente descabida.
- Daniel Vorcaro: Então ele fala que foi dado crédito para alguém que foi cobrado, ou seja, teve uma fraude para algum cliente lá?
- Autoridade da PF: Exato. Exato.
- Daniel Vorcaro: Apareceu algum cliente que foi cobrado? Se o crédito não existia para ser uma fraude, você precisa falar: “Olha, emprestei dinheiro aqui pro Thiago”. Thiago, então pega o dinheiro da conta do Thiago, assim como aconteceu no… tirar o dinheiro da conta. Veio alguém e falou: “Olha, eu perdi dinheiro”? Existe isso?
- Autoridade da PF: A fraude foi o senhor ter pegado as carteiras de uma base de dados que aparentemente quem trouxe pro senhor foi o seu sócio (ex-sócio, enfim), o senhor Augusto Lima. O senhor pega essas bases de dados, internaliza nos sistemas do seu banco e cede.
- Daniel Vorcaro: A senhora tem prova? Tá me acusando?
- Autoridade da PF: Não, eu tô falando que foi o que aconteceu. A gente vai discutir agora os IPJ e justamente é para entender isso: se o senhor acompanhou. Porque o que ficou das mensagens é que o senhor acompanhava esse envio de bases pro BRB, o quanto a gente tinha entrado das bases…
- Daniel Vorcaro: Sabe o que que eu acho, por verdade e franqueza? Foi feito um relatório inicial baseado em informação do Banco Central e depois ele mesmo já disse que já tinha acabado as transações. O próprio Banco Central nos autos diz: “Não, já trocaram”, de uma comunicação que foi feita no Banco Central. E aí um agente que me persegue há 6 anos, que é o Ronaldo — há 6 anos me persegue —, cria uma fantasia de que eu criei uma fraude que deu um rombo de 12 bi para me prender. Já não era a primeira vez que ele pedia a prisão, quatro vezes depois.
- E hoje fica todo mundo tentando provar que isso tá certo. Não têm a coragem de olhar o negócio como ele é. “Ah, teve alguma coisa administrativa, teve não sei o quê…” Fraude não teve! Não teve fraude, não tem cliente que perdeu dinheiro. O BRB não perdeu dinheiro e vai ficar provado por perícia isso. Senão a gente fica discutindo uma coisa.
- Autoridade da PF: Teve 2.2 bilhões de baixa, na realidade. Teve.
- Daniel Vorcaro: E se eu te afirmar que não teve? Pegar uma perícia que não teve? Porque não teve. Eu tô falando assim de perda financeira: não teve, não ocorreu. Os ativos estão lá, eles valem mais do que estão e pode fazer perícia. Chama empresas internacionais para fazer. É uma discussão cível. E se os ativos estão lá e têm mais do que é o valor dele, concorda que não tem como existir alguma fraude? A senhora concorda que se o BRB tiver mais…
- Autoridade da PF: Concordo. Sabe por quê? Porque o BRB primeiro achava que comprava uma carteira credi… O BRB não dava para saber que tava comprando carteira da Tirreno. Ele pensou que tava comprando outro tipo de…
- Daniel Vorcaro: As próprias mensagens desde lá de trás mostram que era carteira de terceiros. Nas mensagens todo mundo sabia que era de terceiros.
- Autoridade da PF: O que aparece pra gente é que em determinado momento… Exato, surgem terceiros lá em abril de 2025, mas as sessões começam em julho. E a gente até fala aqui de contratos que o senhor firmou com o próprio BRB, né? Quando o senhor vendia as carteiras, o senhor vendia elas como sendo carteiras de sexta de julho…
- Daniel Vorcaro: Eu vendi várias carteiras de sexta para o BRB.
- Autoridade da PF: Então, todas as carteiras que o senhor deu como Tirreno, o BRB comprou como crédito.
- Daniel Vorcaro: Mas quem disse isso?
- Autoridade da PF: Tá no processo também. Os peritos todos se debruçaram. Todas as carteiras Tirreno foram vendidas como crédito, já tá documentado. Não sou eu que tô falando.
- Daniel Vorcaro: É, doutora, fica difícil porque assim… Eu não vejo ninguém querendo saber a verdade porque tá todo mundo querendo provar o argumento que fez lá atrás.
- Autoridade da PF: Não, mas a gente não fez argumento nenhum. Chegou pra gente… Não, a gente não fez. A gente pegou uma comunicação que chegou no MP e o MP mandou pra Polícia aprofundar. Ninguém tá inventando…
- Daniel Vorcaro: Você não acha estranho um negócio que terminou… porque tá claro que terminou em maio a Tirreno. Acho que hoje tá claro, um ano depois, correto? Em maio não teve mais negócio, correto?
- Autoridade da PF: Olha, eu acredito… Bom, tem uma conversa do senhor com o seu assessor jurídico (inclusive eu ouvi também), com o Luiz Renault, ele tentando rever essas carteiras da Tirreno: “Vou empurrar a Tirreno nos estrangeiros, nos gringos”. Mas aqui a gente tá falando agora de outro negócio.
- Daniel Vorcaro: Mas o senhor tá falando de empurrar nos gringos… Meu Deus, é difícil assim. A partir de maio teve transação da Tirreno com o BRB? Não, não teve, correto? Um back bank. Não fica estranho esse negócio? Seis meses depois, de algo que já não existia mais… O Banco Central já sabia, já tinha substituído, já não existia mais esse assunto dentro do Banco Central, já tinha substituído. E ele mesmo falou nos autos, que eu li a documentação que eles mandaram pro MP: “Já substituiu”.
- Simplesmente no dia 17 de novembro esse negócio explodiu, um negócio de seis meses atrás, no dia que eu tava vendendo. E eu acho que agora todo mundo fica querendo provar esse ponto, esse argumento que foi feito ali naquele dia 17, só para me prender e para liquidar o banco. Porque se teve problema, eu nunca neguei, teve problema sim, mas ele foi resolvido lá atrás. E a gente fica falando de uma coisa que já tinha sido resolvida à época.
- Autoridade da PF: É porque tem ações que, apesar de poderem resolver algo financeiramente, elas não significam que você vai apagar o que aconteceu.
- Daniel Vorcaro: Não apaga nada, tem que investigar tudo! Contudo, o banco e eu estamos presos há um ano nisso. A senhora acha que isso é algo justo de um negócio que já foi resolvido?
- Autoridade da PF: Tem que ser apurado.
- Daniel Vorcaro: Se alguém fez alguma coisa de errado dentro do meu banco, no BRB, na Tirreno, tem que ser apurado. Agora o que eu sei é que EU não fiz nada. O que eu fiz foi, quando tomei conhecimento do problema de uma carteira, peguei ativos do banco e substituí, peguei ativos próprios meus e substituí de boa-fé ao BRB. E hoje tem mais ativos do que ele pagou. Claro, essa é a realidade. Será que tem alguém com coragem na Polícia Federal para poder entender isso?
- Autoridade da PF: A gente já pediu acesso a esses documentos, ao resultado dessa auditoria…
- Daniel Vorcaro: É isso que eu tô te pedindo.
- Autoridade da PF: Mas o que a gente vê externamente é o que apareceu: 2.2 bi de baixa. Então isso já tem 2.2, porque para mim é muito dinheiro.
- Daniel Vorcaro: Sabe o que é baixa? É um provisionamento contábil que o banco faz. Não quer dizer que não vale; quando vende é que vale.
- Autoridade da PF: Sim, mas tem a não apuração dentro do valor… E ainda assim, o que a gente acompanha é uma tentativa desesperada do DF de conseguir um empréstimo, porque sabe o que aconteceu com a crise de credibilidade. O senhor sabe que depois da liquidação do Master e a minha prisão, foi sacado dinheiro do BRB. A crise do BRB não foi causada por mim, foi causada pela situação que decorreu da liquidação do Master que era parceiro. Tudo isso contribuiu. A conclusão é que os ativos estão lá. Eu não gerei ilicitude no BRB, e é só chamar a perícia. É o que eu tô pedindo, eu não tô pedindo para não investigar, não tô pedindo para não responsabilizar quem fez algum erro lá atrás, não tô pedindo isso. Eu tô pedindo o mínimo de consideração para alguém que tá há um ano preso. Um ano preso por conta de uma transação.
- Autoridade da PF: Um ano preso ainda não…
- Daniel Vorcaro: Quase um ano. Novembro agora vai fazer um ano.
- Autoridade da PF: Não, mas aí o senhor foi solto, depois preso…
- Daniel Vorcaro: Eu fui solto, não, fiquei preso na minha casa. Eu tô há um ano preso com a minha vida devassada, com a minha família dilacerada por um negócio que não aconteceu!
- Autoridade da PF: Aconteceu! Aconteceu! O senhor acabou de me falar que aquele laudo existe, né? Que tudo que tá ali…
- Daniel Vorcaro: Aconteceu com relação a mim ter feito alguma fraude? Eu tô dizendo que o que eu respondo é por mim, não respondo por outras pessoas. Por mim, eu digo: eu não fiz nenhuma fraude com o BRB. Por mim, eu não fiz nenhuma fraude com nenhum cliente. Não tem nenhum cliente que veio falar: “Olha, tiraram o dinheiro de mim indevidamente”. No máximo… Eu não fiz nenhuma fraude. Ao contrário, eu coloquei ativos para poder compor a venda pro BRB. E hoje, como esses ativos eu coloquei com preço menor do que era de mercado, eles valem mais. E é só chamar uma perícia, é uma discussão cível. Eu não tô falando que não tem que ter uma discussão; tá sendo feita no foro cível. Mas esse inquérito de fraude do BRB precisa sim ser arquivado. Não tem nada no processo, não existe… O negócio não aconteceu a fraude.
- Autoridade da PF: Mas a senhora tá me dizendo que o senhor negociou… A baixa de 2 bi, a baixa é um provisionamento, não tem nem apuração. O próprio BRB não sabe. Como é que alguém vai acusar?
- Daniel Vorcaro: Eles não sabem porque a gente ainda não teve acesso.
- Autoridade da PF: E aí o que a gente acompanha é um fato relevante no BRB de um empréstimo de mais de 8 bilhões por conta de toda essa situação que não precisava ter acontecido, não precisava. Se não tivesse sido preso o Master, não tivesse sido liquidado, se tivesse sido feita uma investigação — que acho que existe motivo para fazer investigação do que aconteceu com os créditos, o que teve que desfazer —, isso sim é muito mais no foro administrativo. Mas ok, analisem também sob o ponto de vista criminal quem quer que tenha feito qualquer coisa. Mas não era válido ter liquidado o banco por isso, ter prendido uma pessoa, acabado com uma transação de renda que tava acontecendo. Quase quebraram o BRB por conta disso, é isso que eu tô querendo dizer.
- Daniel Vorcaro: Eu entendo que esse caso virou uma pressão nacional. Eu entendo isso tudo, tem uma pressão de todos. Eu entendo que os senhores sofrem essa pressão também. Mas passa a espuma de mídia, passa tudo e vai ficar na história quem tem coragem de ver a verdade. E eu tô preso injustamente por conta disso. Eu não fiz nada pro BRB, eu não lesei em nada o BRB, ao contrário: eu coloquei ativos meus, coloquei ativos pessoais meus pro BRB abaixo do preço para poder sanar, trocar a transação. Os ativos estão lá, não é uma coisa que alguém precisa acreditar em mim. Eu só preciso ter um voto de confiança e falar: “Pera aí, então vamos ver a perícia”. Qualquer empresa internacional avalia, pega os ativos lá, vamos ver quanto vale. Se valer 14 ou 15 bi, que é o que eu acredito que vale (e que vou pedir essa perícia na ação cível), vai ficar claro que a minha atitude — e tá provado que tá tudo em mensagem, escreveu tudo por texto, tá tudo aí — foi uma atitude de resolver um problema e não de trazer fraude.
- Autoridade da PF: Assim, a gente tá falando nas notícias, né? O que que a gente tem de notícia com relação às substituições? A primeira notícia que apareceu foi que foi cedido o negócio lá nas Ilhas não sei das quantas que não existe, que a pessoa lá responsável do BRB chegou e não encontrou, né? Que aparentemente não foi uma sessão completa. Outra coisa que chama atenção: mesmo as carteiras que não eram da Tirreno, que foram negociadas primeiro lá em julho de 24, houve uma recompra dessas carteiras e a venda pro BRB. Então assim, a gente tá falando aqui de achismos, de coisas que o senhor não sabe, que “ah, vai ter uma perícia, não teve essa perícia”. Vamos falar do que aconteceu…
- Daniel Vorcaro: Pois é, vamos falar do que aconteceu.
- Autoridade da PF: Essa questão do prejuízo a gente pode deixar para uma outra hora, acho super válida mesmo. Tanto que eu pedi isso, pedi esse acesso. Mas acho que agora a gente precisa conversar sobre o que tá acontecendo. O nosso pé aqui… A gente tá nesse pé de que foram cedidos créditos sem avaliação. O senhor internalizou créditos/carteiras sem avaliação e o BRB também fez a mesma coisa.
- Daniel Vorcaro: Teve avaliação e tá tudo nos autos. Teve avaliação, teve envio de documento, o BRB fez a triagem dele, teve todo um processo normal como já era feito com o próprio BRB e com outras instituições. Isso existiu e tá provado ali. O BRB passou nas instâncias…
- Autoridade da PF: Não teve verificação de lastro lá. Eu não sei como é que foi o processo interno, né? Porque quando a gente pega a análise, não dá para entender o que que é Tirreno, o que que é cartas, né? A gente vê os contratos sendo produzidos pela sua equipe, né, de advogados.
- Daniel Vorcaro: Eu fico sabendo do problema, eu vou atrás, coloco advogados, coloco as pessoas para ir atrás para poder resolver, para produzir os… para resolver as questões.
- Autoridade da PF: Resolver assim… Como foi? O senhor pega uma empresa — porque agora a gente vai começar a falar de associações, que são as bases de 1 bi, 1 bi e pouco —, e aí depois o senhor transforma essa Tirreno, chama seus advogados para mudar o nome das bases. Como é que isso vai resolver pro senhor?
- Daniel Vorcaro: Não sei o que é isso, transformar da associação, não sei o que é isso. Eu fiquei sabendo que era Tirreno e abriu…
- Autoridade da PF: Hum…
- Daniel Vorcaro: Abriu mais… E essas bases aqui de 1 bi… Eu não acompanhava, nunca tinha visto um documento de crédito. Já falei lá em dezembro e volto a dizer que agora eu só negociava as carteiras quando eu fiquei sabendo que não tinha… Assim, eu tenho que ter um voto de poder responder, doutora, poder no mínimo considerar que o que eu posso estar falando é verdade. Se a gente for fazer uma inquirição em que a doutora já tem a definição, eu já sou acusado sem a gente poder discutir, sem poder apresentar prova, aí não tem por que a gente ter um motivo. Tem que ter o mínimo de… Quando eu pergunto já negando, tem que ter o mínimo de… Não acha? No mínimo um voto de poder mostrar um outro lado em direito de defesa desse negócio. Se eu já nasci… se eu já nasci com o pau, já nasci com o…
- Autoridade da PF: A gente partiu de um pressuposto. Nosso pressuposto foi abrir o laudo. O laudo concluiu pericialmente… Inclusive tem dois, tem um que eles fizeram por estimativa. Fala que esses créditos não existiram e o senhor negociou. O senhor falou: “Negociei”. Aí agora já tá… Entendeu? O senhor negociou essas carteiras? Negocou. Negociou do jeito que tá ali naqueles contratos, seus diretores assinaram e foi. Então, pronto. Aí agora a gente vai ver a questão aqui das associações, porque essas bases não começaram como Tirreno, começaram como associações. O senhor chega pro senhor Augusto e pergunta notícias da carteira da associação aqui no dia 20/12/2024. A primeira carteira da Tirreno é do dia 24. Olha como a cronologia vai pedir para arrumar a base de terceiros, pedir para ser associações.
- Daniel Vorcaro: A equipe trouxe as bases, foi feito uma seleção lá pro andando. Aí você fala assim: “Ah, como é, continua? Tem que gerar e tal”. Aí o Augusto Lima responde ao senhor: “Tudo pronto, acabei de falar”.
- Autoridade da PF: Tá. E a “Cabo Daciolo pedindo a cueca do cara”. Quem seria esse cara, Cabo Daciolo, que a gente ficou em dúvida?
- Daniel Vorcaro: Bolsonaro? Agora não me lembro. Era o Félix? Roberto Félix? Acho que não… Não, não. Acho que era outro, não sei…
- Autoridade da PF: Tá.
- Daniel Vorcaro: Um funcionário dele lá que ele chamava agora…
- Autoridade da PF: Ah, tá. E aí essas bases elas chegam, né? Elas chegam pra equipe operacional… O nome pro senhor, obviamente, né? E quando a gente vai lá nas análises e que…




COMENTÁRIOS