• Rio Branco, 30/08/2026
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Kafka revisitado

namarcadacal.com.br
Kafka revisitado

Cada vez que assisto a uma entrevista dos candidatos à presidência do Brasil para os próximos anos, me vem à cabeça os livros do falecido escritor tcheco Franz Kafka. São tantas as teses mirabolantes e soluções fantasiosas que os sujeitos externam, que me lembram as criações do referido autor.


Kafka, cuja obra mais conhecida se chama Metamorfose, foi um artista das letras que costumava ver o mundo pelo avesso. Qualquer coisa podia sair dos seus toques na máquina de escrever: desde leite jorrando de uma pedra batida num liquidificador, até um sujeito virando inseto durante a noite.


E então, assim como fazem os prestidigitadores ao estalar os dedos, tem candidato garantindo que a ordem e o progresso deste país abençoado por Deus e bonito por natureza serão alcançados rapidamente no dia em que se fabricar uma bomba atômica. Simples assim: uma bomba e “buuuum”!


Provavelmente, a ideia do sujeito seja a de que é preciso destruir tudo para poder reconstruir do nada. Faz sentido, embora não seja uma ideia assim tão original, uma vez que em tempos outros existiu uma ave chamada fênix que entrava em combustão para depois renascer das próprias cinzas.


Aí, num outro dia, chega um sujeito que diz admirar as recentes ações policialescas de El Salvador, país da América Central que adotou um regime de tolerância zero com o crime, tanto faz se organizado ou desorganizado. E disse, ainda, o tal sujeito que vai fazer igual por aqui, caso seja eleito.


Tolerância zero com o crime é o que todo cidadão deseja. A questão é o método para atingir tal fim. Se, como é o caso de El Salvador, forem suprimidas as garantias individuais e abolidos os processos legais, então não me parece certo. É trocar a violência das ruas pela truculência do Estado.


Mas o pior argumento de todos os entrevistados foi o do sujeito que prometeu combater o aquecimento global com o incremento de ações de saneamento básico. Para falar a verdade, na hora em que eu ouvi isso, duvidei da minha capacidade cognitiva. Duvidei e fui ao banheiro dar uma descarga.


Dei a descarga e percebi que todas ideias dos caras parecem destinadas mesmo a descer pelo ralo. Talvez esteja aí o movimento certo para tanta sandice. Fazer uma ligação direta entre os pensamentos, as palavras e as tripas. Daí para a descarga e o ralo é só questão de um simples gesto. Só isso.


Puro Kafka. Aliás, com tantos concorrentes, ninguém se espantaria mais com os textos desse autor, caso ele voltasse do túmulo para escrever novas histórias. Um homem virar besouro enquanto dorme? Isso é fichinha. Um soco no ar, como Pelé comemorava seus gols, já não motiva ninguém!




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