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Morre Ariosto Miguéis, ex-deputado e técnico do futebol acreano

namarcadacal.com.br
Morre Ariosto Miguéis, ex-deputado e técnico do futebol acreano

POR MANOEL FAÇANHA


Não somente a política acreana perdeu uma das suas grandes figuras, mas o futebol também. Faleceu na manhã deste domingo (5) de Copa do Mundo um dos ícones da nossa democracia. Falo de Ariosto Pires Miguéis, de 90 anos.


O ex-deputado estadual, eleito pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), convivia há algum tempo com problemas de saúde, não resistiu a complicações clínicas e veio a óbito no Hospital do Rim, em Rio Branco. O sepultamento acontece na segunda-feira (6), às 10h, no Cemitério São João Batista, em Rio Branco.


O site Na Marca da Cal, buscando expressar seu apreço à figura de Ariosto Miguéis, resolve republicar uma entrevista concedida pelo ex-técnico e político ao jornalista Francisco Dandão, onde ele fala de sua trajetória de vida política e esportiva. O texto foi publicado no jornal O Rio Branco, em 30 de janeiro de 2014. Confira:


Ex-treinador de Andirá, Rio Branco e Atlético fala da sua vida no futebol acreano


Personagem da história! Depois de alguns minutos ouvindo o cidadão Ariosto Pires Miguéis narrar as suas memórias, é esse o veredicto ao qual se chega: personagem da história! São 78 anos (ele nasceu no dia 27 de agosto de 1935, em Rio Branco) de uma vida cheia de muitos momentos bons e outros nem tanto. Ele até diz que um dia pretende escrever as suas memórias, mas ainda não reuniu disposição suficiente para tal.


Para começar, ele é filho de um imigrante português (José Ferreira Miguéis), que veio da Europa em 1910 para ser marceneiro em Rio Branco, com uma acreana (Onofrina Pires), cujo pai lutou na guerra contra os bolivianos pela anexação do estado ao Brasil. Depois disso, já na vida adulta, Ariosto deixou a condição de funcionário graduado na administração do Acre para ver-se perseguido pela ditadura militar. Amigo do governador José Augusto de Araújo, eleito para dirigir os destinos do Acre em 1962, Ariosto Pires Miguéis, antes do golpe militar de 1964, exerceu, entre outros, os cargos de prefeito de Plácido de Castro, superintendente de Política Agrária do Estado, superintendente do Serviço Rural do Acre, chefe de gabinete da Prefeitura Municipal de Rio Branco (gestão do prefeito Aníbal Miranda) e fiscal de rendas municipais.


No período em que teve seus direitos políticos cassados, porém, quando foi preso duas vezes (uma no quartel do Exército e outra na penitenciária), Ariosto conta que fez de tudo para manter a sobrevivência da família, exercendo inclusive a insólita ocupação de profissional de baralho. Diz que ganhou muito dinheiro jogando pôquer e que só deixou de jogar quando conseguiu a representação de uma editora de revistas.


Para efeito desta matéria, entretanto, enquanto o livro de memórias de Ariosto não sai da imaginação, o que mais interessa é a sua passagem pelo mundo do futebol, quando foi dirigente e técnico do Andirá (primeiros anos da década de 1970), na época sob a proteção da família Dantas (proprietários de seringais e políticos), e depois, sucessivamente, técnico do Rio Branco (1974 e 1975) e do Atlético Acreano (1981 e 1982). Leia a seguir os principais trechos do depoimento dele, a partir dos meus questionamentos.


Francisco Dandão – Fale do seu envolvimento com o futebol.


Ariosto Miguéis – Eu comecei a minha vida esportiva, ainda adolescente, jogando como meia-atacante num time aqui do segundo distrito da cidade, um time chamado Boulevard. Depois fundaram o América, em substituição ao Boulevard. Aí eu fui para o Rio Branco, que era dirigido pelo técnico Walter Félix de Souza, o Té. Acontece que o Té só gostava de jogador maduro e me escalou na ponta-esquerda. Daí, como eu não gostava de jogar nessa posição, fui para o juvenil do América, onde fui campeão em 1949 e em 1950.


Em 1952, eu fui estudar no Rio de Janeiro e então passei um período treinando no Fluminense, cujo técnico era o Gradim, que novamente, assim como fizera o Té, me botou para treinar como ponteiro-esquerdo. Mas aí surgiu uma atividade para mim: eu era encarregado de ir ao aeroporto buscar doentes que iam de Rio Branco para o Rio de Janeiro em busca de tratamento médico. Como era uma atividade remunerada e no Fluminense eu não ganhava nada, preferi largar momentaneamente a bola. Depois disso, passei um período em Porto Velho, onde joguei num clube chamado Vasco da Gama, exercendo, paralelamente, a função de dirigente. Foi aí que me iniciei como técnico de futebol.



Francisco Dandão – A sua chegada ao Andirá: como e quando foi que isso aconteceu?


Ariosto Miguéis – Ao Andirá eu cheguei em 1972. Eu havia passado um período na Europa, fugindo da repressão militar, e quando voltei ao Acre — que foi quando comecei a mexer com bancas de revista —, fiz amizade com o Tião Dantas, irmão do governador Wanderley Dantas, o Dantinha. Este, por sua vez, também havia sido meu amigo antes de assumir esse cargo. Depois que ele foi nomeado governador, chamou-me para trabalhar com ele, mas eu não aceitei. Aí ele passou a me perseguir. Para terminar essa perseguição, eu passei a acompanhar o Andirá, que era o time dele. Foi quando o Tião me chamou para ser supervisor da equipe. O Tião acreditava que, dessa forma, o Dantinha ia acabar com os problemas comigo. E isso de fato aconteceu, sendo que, um tempo depois, eu assumi também o cargo de técnico, oportunidade em que procurei implantar os conhecimentos que adquiri tanto no Brasil quanto na Europa, onde tive a oportunidade de ver em ação os grandes jogadores da época.


Francisco Dandão – Que Andirá era aquele da sua época?


Ariosto Miguéis – O Andirá enfrentava duas grandes máquinas de jogar futebol: o Juventus e o Independência. Esses foram os melhores times que eu vi aqui, só comparáveis ao Rio Branco dos tempos áureos, na década de 1950, quando jogava no Estrelão gente do porte do Dudu, do Touca, do Elínio, do Orseti, do Sepetiba, do Jaime de Almeida etc. Para enfrentar esquadrões tão poderosos, eu tive que montar um sistema de defesa com cinco zagueiros. Só assim para conseguir bons resultados. Tanto que aquelas máquinas de jogar futebol só ganhavam da gente com gols de pênalti ou então com a ajuda dos juízes. Tinha dois juízes aqui que eu não esqueço, porque eles jamais deixavam o Andirá ganhar: o Antônio Soares e o José Ribamar. Esses dois eram danados.


Francisco Dandão – Sobre a sua passagem como treinador do Rio Branco… Como é que foi isso?


Ariosto Miguéis – Eu fui para o Rio Branco em 1974, a convite do dirigente Sebastião Alencar. Dessa minha passagem pelo Estrelão, guardo uma boa recordação de um torneio disputado no Peru, onde nós ganhamos de todo mundo. Ganhamos de três times: uma seleção regional peruana, uma seleção de Pando [Bolívia] e um time da cidade de Maldonado [Peru]. No último jogo, o show foi tão grande que, lá pelas tantas, quando nós já estávamos ganhando por 4 a 0, o prefeito de lá me pediu para a gente dar uma segurada. E assim foi feito. No segundo tempo, eu falei para a rapaziada só tocar a bola até o fim do jogo.


O que não foi legal, e que não me deixou passar mais tempo no comando do time, foi a interferência de alguns dirigentes, principalmente do vice-presidente Edmir Gadelha, que ficava dando palpite no esquema de jogo. Aí eu fiquei de saco cheio, entreguei o cargo e fui embora para casa.


Francisco Dandão – E quanto ao Atlético, Ariosto? Fale do seu tempo no Galo.


Ariosto Miguéis – Fui para o Atlético em 1981, a convite do diretor Wagner Farias, com a anuência do presidente Adauto Frota. Como eu já havia tido uma experiência ruim com os dirigentes do Rio Branco, disse para eles que só aceitava se não houvesse palpite nenhum da parte deles na escalação nem nos meus métodos de trabalho à frente da equipe. Disse para eles que, dentro do campo, quem mandava era eu. Eles aceitaram e cumpriram o prometido de jamais interferir no meu trabalho. No primeiro ano, nós só não fomos campeões porque eu tive que me ausentar da cidade para resolver um negócio no Rio de Janeiro. Deixei o time entregue a um auxiliar e aí a coisa desandou. No segundo ano, 1982, disputei inclusive um Copão da Amazônia com o Galo. E só não chegamos ao título porque ficamos atrás do Juventus no saldo de gols. Perdemos um monte de gols no jogo contra o Independente, do Amapá, e isso fez falta na hora da decisão.



Francisco Dandão – A respeito do futebol acreano do presente, qual a sua opinião?


Ariosto Miguéis – O futebol acreano já esteve melhor. No momento, está com problemas. Teve um declínio nos dois últimos anos. Na minha concepção, a maneira de voltar a ser forte passa pela formação de jogadores. É preciso cuidar da base. A solução para voltar aos melhores dias está nas categorias menores.


Francisco Dandão – Os grandes jogadores do futebol acreano… Quais os maiores que você viu em ação? Escale a sua seleção com os melhores de todos os tempos em nível local.


Ariosto Miguéis – Eu vi grandes jogadores aqui. Craques que poderiam, tranquilamente, jogar em qualquer time do país. Mas, de maneira objetiva, para ir direto ao ponto da sua pergunta, a minha seleção acreana de todos os tempos, num esquema 4-3-3 para contemplar mais atacantes, formaria com: Ilzomar; Mauro, Mozarino, Curica e Antônio Leó; Boá, Cidico e Dadão; Manoelzinho, Touca e Dudu. Grandes jogadores, todos esses!


Francisco Dandão – Dirigentes e técnicos, Ariosto, quais os melhores que você considera na história do futebol acreano?


Ariosto Miguéis – Dirigente, no meu entender, o melhor chama-se Sebastião Alencar. Não digo do ponto de vista das realizações sociais, mas no que diz respeito ao futebol, o Alencar foi o melhor de todos. E quanto ao técnico, para mim não houve ninguém melhor do que o Té. Esse conhecia tudo, armava um time como ninguém. O Té estava acima de todos. Mas também posso citar o Elder Fuzarca. Teoricamente, o Fuzarca sabia demais.


Em 2014, o ex-técnico Ariosto Miguéis (E) foi homenageado no livro “Personagens do Futebol Acreano”. Foto/Acervo Manoel Façanha

Francisco Dandão – Por último, eu gostaria de saber a sua opinião sobre o treinador Álvaro Miguéis, seu filho, que atualmente dirige o Rio Branco.


Ariosto Miguéis – Da nova safra que apareceu no futebol acreano, ele é o melhor treinador. Isso eu analiso criticamente, independente da condição de filho. Ele é estudioso, sabe orientar o time, ensaiar jogadas… O Álvaro faz o que poucos fazem. Acho até que ele aprendeu isso comigo [sorrindo]. Não vejo nenhum técnico acreano atualmente com as características do Álvaro.


 




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