• Rio Branco, 19/04/2026
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Entre trilhas e rios, a longa jornada de três irmãos que enfrentam horas de viagem para estudar no interior do Acre

agencia.ac.gov.br
Entre trilhas e rios, a longa jornada de três irmãos que enfrentam horas de viagem para estudar no interior do Acre

Ainda é madrugada quando a rotina começa na zona rural de Bujari, no interior do Acre. Antes mesmo do sol nascer, três irmãos deixam a casa onde vivem com a família, na Fazenda Aliança, e iniciam uma jornada diária marcada por resistência, disciplina e esperança.


Estudantes enfrentam quilômetros de trilha para dar o primeiro passo rumo ao aprendizado. Foto: Mardilson Gomes/SEE

O destino é a Escola Rural Limoeiro, localizada no km 60 do Ramal da Funtac, um percurso que exige esforço físico e determinação incomuns para estudantes da idade deles.


O primeiro trecho é feito a pé. São cerca de quatro quilômetros por uma trilha de terra até a beira do rio, caminhada que leva aproximadamente uma hora. No inverno, a lama dificulta ainda mais o trajeto; no verão, a poeira toma conta do caminho.


Depois da caminhada, os irmãos embarcam em um barco e seguem viagem pelo rio. Durante o percurso, ainda precisam trocar de embarcação antes de continuar até a escola. Ao todo, são entre duas e três horas navegando até chegar ao destino.


Irmãos seguem pela trilha ainda ao amanhecer, iniciando mais um dia de caminhada até a escola. Foto: Mardilson Gomes/SEE

Entre trilhas, rios e longas horas de deslocamento, os três irmãos carregam não apenas mochilas e coletes salva-vidas, mas também sonhos e a certeza de que a educação pode transformar suas vidas.


Determinação que nasce cedo


O estudante Liedson da Silva Moura, de 15 anos, cursa o 9º ano do ensino fundamental e encara diariamente a longa jornada até a escola. Para ele, o trecho mais difícil ainda é a caminhada de quatro quilômetros até a beira do rio.


Mesmo com o cansaço da rotina, Liedson mantém o foco nos estudos e no futuro que deseja construir. “Tem muita gente que tem o ônibus na porta de casa e não aproveita. A gente enfrenta tudo isso e não pensa em desistir”, afirma.


De colete salva-vidas, Liedson encara o trajeto fluvial diário que o leva até a escola. Foto: Mardilson Gomes/SEE

O jovem gosta de estudar, mantém bom relacionamento com os professores e já tem um objetivo claro: quer ser policial do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) da Polícia Militar.


“Venho todo dia lá da Fazenda Aliança, onde moro, aqui no Rio Antimary. Acordo às 4h, faço uma longa caminhada e venho para a escola no barco da Secretaria. Eu gosto de estudar. Aqui tem merenda, tem almoço, tem tudo.”


Além da escola, Liedson também ajuda o pai nas atividades do campo. O incentivo para continuar estudando vem justamente de casa. O pai, que não teve acesso à educação, reforça diariamente a importância de aproveitar a oportunidade que ele não teve.


“Ele sempre fala para a gente estudar, porque é algo que ele não conseguiu fazer”, conta.


Entre rios e travessias, os irmãos seguem juntos com outros estudantes rumo à escola rural. Foto: Mardilson Gomes/SEE

Sonhos que atravessam o rio


A mesma rotina é compartilhada pelo irmão mais novo, Teylon Snayder Moura da Silva, de 11 anos, aluno do 5º ano. Desde pequeno, ele aprendeu que estudar exige esforço, mas isso nunca diminuiu sua vontade de aprender.


Durante o trajeto de barco, o uso do colete salva-vidas é indispensável. Ao chegar em casa, após o longo percurso de volta, o cansaço é inevitável.


Ainda assim, ele mantém o olhar voltado para o futuro.“Eu não reclamo, porque sei que preciso estudar. Tem gente que mora perto da escola e reclama de acordar cedo”, diz.


Apaixonado por carros desde os cinco anos de idade, Teylon sonha em ter uma concessionária de veículos. Ao mesmo tempo, também pensa em seguir carreira acadêmica e não descarta cursar medicina no futuro.


Com a mochila nas costas, Teylon caminha com determinação para chegar à sala de aula. Foto: Mardilson Gomes/SEE

Na escola, ele encontra não apenas aprendizado, mas também convivência com os amigos, algo que valoriza muito. Nos momentos livres em casa, dedica-se às atividades escolares e utiliza até o celular como ferramenta de estudo, especialmente para aprender matemática.


Responsabilidade e sonhos grandes


Já Kaleu Kleiton Moura da Silva, de 14 anos, estudante do 8º ano, afirma que uma das maiores dificuldades é sair de casa ainda ao amanhecer para iniciar o trajeto até a escola.


Depois da caminhada até o rio, ele precisa aguardar o barqueiro para seguir viagem. O tempo de deslocamento varia conforme o nível das águas.


“Quando o tráfego do rio está bom, chegamos antes das 8h. Quando tem muito pau no rio, por exemplo, o trajeto fica mais demorado e chegamos até umas 8h30”, explica.


Kaleu enfrenta horas de deslocamento entre caminhada e barco para garantir o direito de estudar. Foto: Mardilson Gomes/SEE

Para Kaleu, o estudo é fundamental para conquistar novas oportunidades. “Pelo menos com o ensino médio fica mais fácil conseguir um emprego”, afirma.


Ele tem dois grandes sonhos: estudar mecânica automotiva e trabalhar como dublador de filmes e séries.


Em casa, divide o tempo entre os estudos, as tarefas domésticas e o trabalho no campo com o pai. A responsabilidade aumentou após a mãe sofrer um AVC e ficar com sequelas no braço esquerdo.


Mesmo diante das dificuldades, ele mantém a motivação. “Quero dar orgulho ao meu pai. Ele não conseguiu estudar, e eu quero realizar esse sonho por ele”, diz.


O incentivo que vem da família


A mãe dos meninos, Vandira do Carmo da Silva, de 34 anos, conhece de perto o peso das dificuldades. Moradora da Fazenda Aliança, ela perdeu a mãe ainda na infância e precisou começar a trabalhar aos 14 anos para se sustentar, sem nunca ter tido a oportunidade de frequentar a escola.


Vandira acompanha de perto a rotina dos filhos e reforça diariamente a importância da educação. Foto: Mardilson Gomes/SEE

Hoje, mãe de cinco filhos, faz questão de incentivar os estudos. “Queremos que eles tenham um futuro diferente do nosso. O trabalho braçal é muito difícil e não queremos isso para eles”, afirma.


Ela conta que a maior preocupação é a longa distância percorrida diariamente pelos filhos.


“Eles acordam muito cedo e voltam para casa por volta das 15h30 ou 16h. Enquanto eles não chegam, o coração da gente não sossega. Eles sofrem muito para ir para a escola, enquanto tem muitos que moram ao lado e não querem estudar”, relata.


Mesmo com os desafios, a família prefere continuar vivendo no campo. “Criar eles aqui é mais tranquilo para nós do que morar na cidade”, explica.


Apesar das dificuldades, Vandira diz sentir orgulho da dedicação dos filhos. “Eles fazem a parte deles e nós fazemos a nossa”, completa.


Da varanda de casa, os pais observam a saída dos filhos e carregam a esperança de um futuro melhor. Foto: Mardilson Gomes/SEE

O pai, Elizeu Moura da Silva, também se emociona ao falar dos filhos. Sem ter tido oportunidade de estudar, ele incentiva os jovens a buscarem uma vida diferente da que teve.


O sonho dele é que todos concluam os estudos, tenham uma profissão e construam um futuro com mais oportunidades.


Educação que chega longe


A realidade da família não é isolada. Na Amazônia, o acesso à educação ainda exige sacrifícios diários de crianças e adolescentes que enfrentam longas distâncias e condições adversas para permanecer na escola.


Durante o trajeto pelo rio, os irmãos seguem em silêncio, entre o cansaço e os sonhos que os movem. Foto: Mardislon Gomes/SEE

Na Escola Rural Limoeiro, onde estudam 15 alunos, seis utilizam transporte fluvial para chegar às aulas. O deslocamento é feito em um barco disponibilizado pela Secretaria de Estado de Educação e Cultura (SEE), conduzido pelo barqueiro Jesus Silva do Nascimento, que também tem um filho matriculado na escola.


Para garantir melhores condições de ensino, o governo realizou recentemente uma série de melhorias na unidade escolar.


Entre as intervenções estão a instalação de um novo piso, pintura completa da estrutura, substituição de portas e janelas, melhorias na parte elétrica, construção de uma nova cozinha e de banheiros, além da instalação de manta térmica, forro, pias, vasos sanitários e uma nova cerca.


Escola Rural Limoeiro recebeu melhorias na estrutura para garantir mais conforto e qualidade no ensino. Foto: Mardilson Gomes/SEE

Nos últimos anos, o governo do Acre também investiu na compra de uniformes e kits escolares, realizou concurso para novos professores, melhorou a qualidade da alimentação escolar e revitalizou diversas escolas rurais e indígenas, respeitando suas especificidades.


As melhorias também refletem no dia a dia dos alunos. Kaleu conta que a merenda escolar, por exemplo, melhorou muito em qualidade e quantidade. Agora, os estudantes almoçam na escola antes de iniciar a longa viagem de volta para casa.


Vandira também destaca a importância dos uniformes distribuídos pelo governo. “Os uniformes foram muito bons, porque ajudam a economizar a roupa. Eu incentivo eles a usarem, porque já que o governo dá, tem que usar. A marca do aluno é a farda. É lindo ver todos os alunos da escola uniformizados”, afirma.


Na escola, além do aprendizado, os estudantes contam com alimentação que ajuda a enfrentar a longa jornada.Foto: Mardilson Gomes/SEE

Sonhos que resistem


Mesmo com a rotina exaustiva, os três irmãos seguem firmes. Entre trilhas, rios e horas de deslocamento, carregam não apenas mochilas, mas sonhos que insistem em sobreviver às dificuldades.


Para eles, estudar não é apenas uma obrigação, é uma oportunidade que não pode ser desperdiçada.


E todos os dias, antes mesmo do sol nascer, eles mostram que nenhum caminho é longo demais quando o destino é o futuro.


































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