Pressão econômica da resistência do Irã força novo recuo dos EUA


O segundo recuo de Trump é acompanhado da manutenção do preço do barril de petróleo em torno dos US$ 110 dólares, com as ações de Wall Street nos valores mínimos dos últimos seis meses, além da queda dos mercados de títulos da zona do euro e do Tesouro dos EUA.
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“Nesse caso, teremos a possibilidade de o petróleo bater recorde e passar de US$ 150, eventualmente chegar a US$ 200. Isso é muito e destrói inteiramente a popularidade de Trump nos EUA, particularmente entre os independentes, mas mesmo de parte dos afiliados ao partido Republicano”, comentou à Agência Brasil.
O professor Pedro Paulo acrescenta que, quanto mais danos a guerra causar à infraestrutura energética da região, maior será o prejuízo econômico no mundo e nos EUA.
“Provocaria uma queda ainda maior do volume de petróleo que chega ao mercado internacional. Uma coisa é religar [um sistema paralisado], mantida a capacidade produtiva, outra é reparar a capacidade produtiva destruída, cuja restauração levaria muito mais tempo”, disse.
Efeitos catastróficos
O economista Marco Fernandes, membro do Conselho Popular do Brics, pondera que os efeitos econômicos serão “catastróficos” se a guerra se prolongar ou se aumentar a destruição da infraestrutura dos países da região.
“Há analistas econômicos dizendo que podemos ter um efeito que seria a somatória da Covid com a guerra da Ucrânia nos primeiros meses. Outras avaliam que, se essa guerra se prolonga por alguns meses, pode vir a ser algo comparável à crise de 2008. Não acho que são estimativas irrealistas”, comentou.
Por outro lado, o também analista geopolítico do Brasil de Fato ponderou que o recuo de Trump pode ser para ganhar tempo para uma invasão por terra do Irã, o que também levaria a um endurecimento das respostas iranianas, aprofundando a crise econômica que Trump busca contornar.
“Se os yemenitas [aliados do Irã] fecham o estreito Bab al-Mandeb [no Mar Vermelho], aí nós vamos ter, de fato, um colapso generalizado do mercado de energia no mundo”, completou Marco Fernandes.
Fertilizantes e Chips
O economista lembra que o gás do Oriente Médio é fundamental para os fertilizantes, usados na produção de alimentos, e para produção de chips e semicondutores e outras peças eletrônicas, em especial, das fábricas de Taiwan. Os semicondutores estão em todos os tipos de aparelhos, como carros e celulares.
“Isso pode ser gravíssimo. Algo entre 60% a 70% da produção global de chips vem de Taiwan. E a TSMC [Taiwan Semiconductor Manufacturing Company], que é a grande empresa global de produção de chips, não tem estoques de gás hélio por muitos mais dias”, avalia.
Ainda segundo o especialista, os EUA não teriam capacidade industrial de manter uma guerra de longo prazo uma vez que os estoques do sistema antimísseis THAAD, o principal sistema dos EUA, já teriam sido 25% gastos na Guerra dos 12 dias contra o Irã, em junho de 2025.
“Essa guerra também, quanto mais tempo ela continuar, maiores as chances de Israel e dos outros ativos estadunidenses na região ficarem sem nenhuma defesa contra os mísseis iranianos. Então de fato é um cenário, eu diria, que se configura ou se... Se vislumbra uma catástrofe tanto para Estados Unidos quanto para Israel na região”, completa.
Marco acrescenta que, mesmo sendo o maior produtor de petróleo do mundo, as empresas dos EUA operam com o preço do mercado global, sem preocupação de amortecer o valor dos combustíveis na bomba para o público interno.
“Por, justamente, se tratar de um sistema capitalista selvagem, as empresas produtoras de petróleo não vão vender mais barato internamente, elas vão cobrar o preço mundial. Os EUA tendem a sofrer mais aumento do preço dos combustíveis. Isso é péssimo para o Trump eleitoralmente porque isso vai aumentar a inflação no país”, analisou.
Risco político
Em novembro, há eleições legislativas no país e Trump corre o risco de perder a pequena maioria que tem no Congresso. O professor da Unicamp Pedro Paulo Zaluth Bastos lembrou que o presidente dos EUA vem perdendo popularidade devido a inflação provocada pelas tarifas que ele impôs às importações do país.
“O Irã sabe que, agora que encontrou um ponto de estrangulamento fundamental para a economia mundial, só vai querer sair da guerra se tiver condições favoráveis. E é relativamente barato fechar o Estreito de Ormuz e cobrar concessões maiores, como já estão fazendo”, comentou.




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