Memórias de Boleiro: Ulisses Torres fala da carreira de atleta e de técnico estudioso
POR MANOEL FAÇANHA
O ex-atacante e técnico Ulisses Torres, de 59 anos, foi o entrevistado do quadro “Memórias de Boleiro”, apresentado nesta sexta-feira (30), no programa “Diário do Esporte” (TV Rio Branco/Rede Cultura – canal 8.1).

Ulisses Torres construiu sua carreira nos gramados nas equipes do Juventus e do Rio Branco, além de alguns clubes cariocas: Teresópolis-RJ, América e Barra. O jogador colecionou em sua trajetória dois títulos estaduais: Rio Branco FC (1992) e Juventus (1995).
Os primeiros passos atrás da bola
Desde os 11 anos, quando vestiu pela primeira vez a camisa de um clube de futebol — no caso, o infantil do Juventus, sob o comando do professor Jesus Lima.
Depois do Juventus, Ulisses vestiu muitas camisas como jogador de futebol: Rio Branco (infantil, em 1978, e adulto em 1987 e 1992); Teresópolis, do Estado do Rio de Janeiro (juvenil, de 1982 a 1985); América e Entrerriense, ambos do Rio de Janeiro (júnior, no primeiro, e adulto, no segundo, em 1986); Barra, do Rio de Janeiro (segundo semestre de 1993); e Juventus, em 1995, quando parou de jogar, aos 28 anos.
Quase desembarcou no Flamengo-RJ
Mas o ponto alto da carreira do atleta Ulisses foi o convite para jogar no Flamengo (RJ), o que só não aconteceu por uma fatalidade. O convite veio depois de um treino da seleção brasileira que se preparava para a Copa de 1994. Ulisses e mais dois jogadores do Barra foram convocados para treinar no time B do Brasil. Um dirigente do Flamengo gostou do atacante cabeludinho e, daí para o convite, foi um instante.
Três dias depois, porém, ele se contundiu gravemente no joelho direito e o sonho se esvaiu. Entre um clube e outro como atleta consagrado, um chute de efeito aqui, um gol acolá, Ulisses Antun Torres de Melo ainda achou tempo para cursar uma graduação em Educação Física e uma especialização em Treinamento Físico-Desportivo (ambas em Batatais – SP).
Carreira de técnico, títulos e reconhecimento

A união da paixão pela bola com a prática e com o conhecimento teórico não poderia resultar em outra coisa senão no exercício profissional como técnico de futebol, carreira que começou em 1997, no Vasco da Gama local. De 1997 até hoje, Ulisses Torres dirigiu sete equipes: Vasco da Gama (1997, 1999 e 2007); Batatais (2001 e 2002); Rio Branco (início de 2003, 2005, 2023 e 2025); Juventus (2004, 2005, 2008, 2011 e 2012); Atlético Acreano (2013) e Independência (2025); além de conquistar o título da 2ª Divisão no comando do Andirá na temporada 2015.
Torres também trabalhou nas divisões de base do Andirá, em 2006. O profissional coleciona dois títulos estaduais na elite: no Vasco, em 1999, e no Rio Branco FC, em 2023. No Batatais, ficou em sexto lugar entre 16 participantes na Série B1 do Campeonato Paulista de 2001. No Rio Branco, ficou duas temporadas no início dos anos 2000 — com eliminações na Copa do Brasil para o CFA-RO (2003) e o Moto Clube-MA (2005). No Juventus, entre idas e voltas, jamais conquistou um título, mas chegou a duas finais (2004 e 2008) e ainda a uma semifinal de estadual na temporada 2011.
Entrevista concedida para o professor Dandão
Técnico estudioso do futebol como poucos profissionais que já passaram pelo Acre, devorador de livros sobre estratégia e tática desse esporte, membro da Associação Brasileira de Treinadores de Futebol (ABTF) e frequentador assíduo de cursos de atualização em treinamento desportivo, Ulisses Torres largou seus múltiplos afazeres e concedeu entrevista ao jornalista esportivo Francisco Dandão, em 2008. Nas linhas que se seguem, apresentamos uma síntese das respostas dele.
Francisco Dandão – Diga-me, Ulisses, para começo de conversa, o que representa o futebol na sua vida?
Ulisses Torres – O futebol é uma coisa que preenche a minha vida. Não tem nada que possa substituí-lo, talvez nem mesmo a família. Na verdade, futebol e família são sentimentos diferentes, que se completam. Eu preciso dos dois para viver feliz. O futebol é a minha própria vida. Em 2006, antes de eu ser convidado para dirigir as divisões de base do Andirá, me deu uma certa angústia porque naquele momento não estava aparecendo convite nenhum. Até que apareceu o Andirá, o que acabou me dando muito prazer, pela oportunidade de trabalhar com garotos e ajudar na formação deles, não só como atletas, mas também como homens. Muitos daqueles garotos, inclusive, foram para o Independência, fizeram uma brilhante campanha na Taça São Paulo de Juniores deste ano de 2008, e estão agora no profissional do Tricolor.
Francisco Dandão – E sobre técnicos, em quem você considera que se espelha para exercer o ofício?
Ulisses Torres – Eu andei estudando muito sobre o trabalho do Telê Santana, no São Paulo, o resgate que ele fez na equipe paulista quando o time estava em baixa, no começo da década de 1990, que culminou com dois títulos mundiais. O outro treinador em quem eu procuro me espelhar é o Vanderlei Luxemburgo, que é um técnico que passa segurança para os jogadores e para quem assiste às suas preleções ou palestras. Eu, que sempre vou a um encontro anual de treinadores promovido no Rio de Janeiro pelo Carlos Alberto Parreira, fico sempre maravilhado com o que diz o Vanderlei Luxemburgo. Ele é um grande treinador, um modelo a ser seguido. Penso que ele é um dos melhores de todos os tempos no Brasil. E tem um sujeito, que não tem nada a ver com o futebol, mas por quem eu tenho a maior admiração, que é o Bernardinho, técnico da seleção de voleibol.
Francisco Dandão – Sobre os seus tempos de jogador, quais são as suas melhores lembranças?
Ulisses Torres – Quando eu jogava no infantil do Rio Branco, numa partida contra o Escuela Trinidad, da Bolívia, aqui no Estádio José de Melo, eu estava no banco porque não tinha podido ir a Cobija, na partida anterior, quando perdemos para eles. Então, eu entrei aqui no segundo tempo, quando o jogo estava 1 a 1. Entrei e marquei o gol da vitória. Mas o detalhe legal, inesquecível mesmo, foi o que aconteceu depois. Eu soube que o Caíca, que era o ponteiro-esquerdo do time principal e que estava internado num hospital local, ouvia o jogo pelo rádio e teria dito que, quando eu entrasse, faria o gol da vitória. Isso me emocionou profundamente, a ponto de jamais sair da minha lembrança. Outra coisa foi uma eleição que fizeram em Teresópolis para eleger os melhores jogadores locais de todos os tempos, e eu fui um dos mais votados. Isso me marcou profundamente. Claro que os títulos que a gente ganha também são muito importantes…
Francisco Dandão – Esse futebol que se joga hoje no Acre, Ulisses, que futebol é esse?
Ulisses Torres – Eu penso que, não somente no Acre, mas no Brasil como um todo, deveria haver uma preocupação maior dos dirigentes no sentido de se prepararem melhor para o exercício da função. Se isso acontecer, no dia em que os dirigentes forem mais preparados e menos passionais, o futebol irá melhorar sensivelmente. Na vida moderna, numa era de informação e tecnologia, não é mais possível alguém se engajar, seja na vida pública ou privada, de forma amadora. Além disso, é preciso criar uma boa infraestrutura fora de campo. Hoje, por exemplo, no Acre, provavelmente seria muito mais difícil fazer futebol, talvez até impossível, se não fosse essa ajuda do Governo do Estado. Aliás, para efeito de registro, é bom ficar claro que esse convênio dos clubes com o Governo foi uma iniciativa minha com o Tião Bruzugu. Na verdade, a ideia foi dele, Tião, mas depois nós a desenvolvemos juntos. Em 1999, quando nós estávamos no Vasco da Gama, fizemos um projeto para o Governo, que prontamente acatou e cujos fundamentos estão valendo até hoje.
Francisco Dandão – O que esperar desse Juventus que você dirige em 2008?
Ulisses Torres – A minha primeira conversa com essa diretoria do Juventus foi para o desenvolvimento de um projeto com a duração de três anos. Pelas nossas projeções, ao final do terceiro ano nós deveríamos estar com uma equipe capaz de ganhar o título estadual. Mas parece que, no processo de formação desse time atual, nós acabamos saltando algumas etapas e agora até já pensamos em ganhar o título deste ano mesmo. Certamente ainda cometeremos alguns erros no percurso, mas pensamos que, levando em conta a realidade dos outros times, já estamos em condição de brigar em pé de igualdade com todos pelo título dessa temporada. E até, se for o caso, alçar voos mais altos, representando o Estado em alguma competição nacional.
Francisco Dandão – Você sempre acerta quando traz jogadores de fora. Como é que você faz isso?
Ulisses Torres – Primeiro, porque eu passei três anos no interior de São Paulo e, assim, conheço o potencial de muitos jogadores. Não trago só por ouvir falar ou por indicação de empresários desconhecidos. Jamais farei isso. Além disso, eu tenho muitos amigos, tanto na área técnica quanto na área de preparação física, que fazem essa indicação com responsabilidade. Agora, tem uma coisa: nunca fui para clube algum em que os dirigentes pudessem me dizer para formar o time que eu quisesse. Ao contrário, o que, de modo geral, os dirigentes dizem é que estão no vermelho e que eu devo trabalhar com o possível, não com o desejável. No dia em que eu puder formar o meu time, com carta branca dos dirigentes para contratar os jogadores, certamente poderei garantir o título para o clube em que eu estiver.
Francisco Dandão – Sobre os melhores jogadores que você viu em ação no futebol local, aqueles que jogariam em qualquer lugar do país, que nomes você citaria?
Ulisses Torres – Dadão, que eu vi já nos últimos anos dele como jogador, esse está acima de todos. Mas pode-se citar ainda outros craques fora de série. Casos, por exemplo, de Mariceudo, Carlinhos, Emilson, Gil, Mário Vieira, Paulinho, Paulo Henrique, Neórico… Esses todos poderiam jogar em qualquer time do Brasil.



























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