PIX na mira dos EUA: entenda por que Trump decidiu ‘comprar briga’ com o pagamento brasileiro
Sistema criado pelo Banco Central entrou na mira dos EUA durante investigação comercial que pode resultar em novas tarifas contra o Brasil
Por que Trump abriu investigação contra o PIX: os EUA alegam que o sistema brasileiro favorece um serviço estatal e prejudica a concorrência de empresas americanas Foto: White House/Agência Brasil O sistema brasileiro de pagamentos, o PIX, foi apontado pelo governo dos Estados Unidos como um dos motivos para o novo “tarifaço” de 25% contra o Brasil, anunciado nesta segunda-feira (1º).
A gestão Trump formalizou críticas à economia, justiça e política brasileira sob a justificativa de que barreiras locais estariam travando os negócios com os Estados Unidos.
Por que Trump abriu investigação contra o PIX
A principal reclamação dos Estados Unidos é que o Banco Central ocupa uma posição considerada única no mercado brasileiro: além de regular o setor financeiro, também é o responsável pelo desenvolvimento e operação do PIX.
Na visão do governo americano, isso cria uma vantagem para o sistema público de pagamentos e dificulta a competição de empresas privadas que atuam no mesmo segmento.
Segundo os EUA, o Banco Central atua como regulador e operador do PIX, o que poderia limitar a concorrência no setorFoto: Reprodução/ND MaisO argumento aparece em documentos do USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos), órgão responsável pela investigação, com base na chamada Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.
Segundo o governo americano, o Brasil estaria adotando práticas que favorecem serviços de pagamento eletrônico desenvolvidos pelo próprio Estado.
Embora o PIX não tenha sido citado diretamente no documento que deu início à investigação em 2025, a referência a sistemas de pagamento eletrônico operados pelo governo brasileiro deixou pouca margem para dúvidas sobre qual plataforma estava sendo questionada.
O que incomoda gigantes como Visa e Mastercard?
Por trás da discussão regulatória existe uma disputa econômica bilionária.
Desde que foi lançado, em 2020, o PIX se tornou um dos meios de pagamento mais utilizados pelos brasileiros. O sistema oferece transferências gratuitas para pessoas físicas e cobra taxas reduzidas das empresas, algo que mudou a dinâmica do mercado.
Com isso, operações que antes passavam por cartões de crédito, débito ou transferências bancárias tradicionais migraram para o PIX.
Fintechs americanas que operam no Brasil precisam integrar o PIX para atuar dentro das regras do Banco CentralFoto: Divulgação/Agência Brasil/ND MaisEssa transformação afetou empresas como Visa e Mastercard, que têm forte presença global e veem o Brasil como um mercado estratégico. Em abril deste ano, um relatório da Casa Branca voltou a apontar o sistema brasileiro como um fator que estaria prejudicando grandes companhias do setor de pagamentos.
Além das bandeiras de cartão, fintechs americanas também enfrentam um ambiente diferente no Brasil. Enquanto nos Estados Unidos muitas plataformas cobram pelas transferências instantâneas, aqui as instituições financeiras precisam se integrar ao PIX para operar dentro das regras definidas pelo Banco Central.
O PIX Internacional também entrou no radar?
Especialistas acreditam que a preocupação dos EUA pode ir além do mercado brasileiro.
O Banco Central trabalha para ampliar o alcance do PIX e permitir, no futuro, pagamentos internacionais mais simples e diretos. Hoje, o sistema já pode ser usado de forma limitada em alguns locais no exterior, como estabelecimentos em cidades como Miami, Orlando e Lisboa, além de pontos específicos na Argentina.
Mas o plano é mais ambicioso. A ideia é conectar o PIX a sistemas de pagamentos instantâneos de outros países, facilitando transferências e compras internacionais sem a necessidade de intermediários tradicionais.
O Banco Central trabalha em projetos para ampliar o uso internacional do PIX nos próximos anosFoto: Marcello Casal Jr/Agência BrasilÉ justamente nesse ponto que alguns analistas enxergam um possível motivo adicional para o incômodo americano.
Caso sistemas semelhantes ao PIX passem a ser utilizados em larga escala entre países do Brics e outros parceiros comerciais, parte das operações internacionais poderia reduzir a dependência do dólar e dos canais financeiros tradicionais dominados por empresas ocidentais. Embora esse cenário ainda esteja distante, ele é acompanhado de perto por governos e pelo mercado financeiro global.
O que acontece agora
Antes de qualquer decisão definitiva, os Estados Unidos abrirão uma fase de consultas públicas sobre a proposta.
O calendário prevê pedidos de participação em audiência pública até 22 de junho, envio de manifestações por escrito até 1º de julho, realização da audiência em 6 de julho e definição das medidas até 15 de julho.
Se a proposta for confirmada, a nova tarifa de 25% substituirá o adicional temporário de 10% atualmente aplicado pelos EUA sobre produtos brasileiros, ampliando a pressão sobre setores exportadores que dependem do mercado americano.



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