Memórias das Copas – 2º capítulo
No início da semana, lançamos o primeiro capítulo da coluna “Memórias das Copas”, trazendo ao leitor a história da origem do futebol. Neste segundo capítulo, vamos discorrer a respeito das três primeiras edições do torneio: 1930, 1934 e 1938.
Crise econômica, boicotes e Celeste campeã
O primeiro torneio ocorreu quase um ano após a grande crise econômica mundial de outubro de 1929 (a quebra da Bolsa de Valores de Wall Street — o maior colapso financeiro da história dos Estados Unidos). Foi justamente essa crise financeira um dos elementos que vieram a favorecer diretamente a proposta apresentada pelo Uruguai para sediar o Mundial (o país ofereceu uma proposta que pagava todas as despesas das seleções visitantes), isso sem falar que a seleção celeste era uma potência na modalidade na época — era bicampeã olímpica (1924-1928). Para completar, o país ainda festejava naquele ano o seu centenário de independência política.
Mesmo com todos os atrativos, a Copa do Uruguai, realizada na metade do ano de 1930, reuniu apenas 13 seleções, quatro delas europeias (Iugoslávia, Romênia, França e Bélgica). Conforme relatos históricos, essas seleções viajaram por semanas de navio para chegar ao país-sede. O Brasil fez apenas duas partidas: derrota para a Iugoslávia por 2 a 1 e vitória sobre a Bolívia por 4 a 0.
Na grande decisão, ocorrida no estádio Centenário, 96 mil espectadores assistiram à vitória do Uruguai sobre a Argentina por 4 a 2.

Azzurra mostra força e levanta a Taça Jules Rimet
Em 1934, a Itália, sob a ditadura fascista de Benito Mussolini, vivia um período de intensa propaganda e expansionismo. Naquele ano (de 27/05 a 10/06), o regime trouxe ao país a 2ª edição da Copa do Mundo para projetar a força do Estado. O torneio contou com 16 seleções, mas 34 países tiveram interesse na competição, o que exigiu a realização de partidas eliminatórias. Nesta edição, nove das doze seleções europeias não haviam participado da Copa do Uruguai (Itália, Alemanha, Espanha, Holanda, Hungria, Tchecoslováquia, Suécia, Áustria e Suíça). É digno de registro que o Egito foi o primeiro país africano a se fazer presente numa edição de Copa. Por outro lado, o Uruguai, atual campeão, não quis participar em represália às seleções europeias que, quatro anos antes, não quiseram ir à sua Copa.
A competição foi um exemplo claro de um evento esportivo sendo usado para evidente benefício político. O primeiro-ministro italiano, Benito Mussolini, estava pronto para usar o torneio como meio de promover o fascismo. Alguns jogadores sul-americanos com ascendência italiana foram naturalizados, como foi o caso dos argentinos Luís Monti, Raimundo Orsi e Enrique Guaita, e do brasileiro Filó (Guarisi).
Com a bola rolando, o Brasil — de Leônidas, Luizinho e Carvalho — fez apenas uma partida, sendo eliminado precocemente pela Espanha ao cair pelo placar de 3 a 1.
Numa final bem disputada, ocorrida no Estádio Nacional do PNF (Stadio Nazionale del Partito Nazionale Fascista), na cidade de Roma, diante de 55 mil espectadores, a Itália superou, na prorrogação, a Tchecoslováquia por 2 a 1. O atacante italiano Giuseppe Meazza foi eleito o craque do Mundial.

Novos boicotes, Azzurra bicampeã e Brasil fica em 3º
Com o planeta vivendo o medo do regime nazifascista, principalmente na Europa, a Copa do Mundo FIFA de 1938 seguiu com boicotes. Revoltada com a não concretização do rodízio de sedes continentais, a Argentina, que perdeu a disputa para a França, puxou a lista de boicotes. Brasil e Cuba foram as únicas seleções do continente americano a furar a bolha.
A Itália era a equipe a ser batida em 1938. A Azzurra havia conquistado a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. E com o regime fascista aproximando-se do seu auge, conquistar o bi era questão de honra para o ditador Benito Mussolini. Na estreia contra a Noruega — rival da final das Olimpíadas de Berlim —, o técnico Vittorio Pozzo ordenou aos seus comandados que fizessem a saudação fascista, algo protestado por 10 mil torcedores franceses presentes ao estádio Velodrome.
Após eliminar na estreia a Polônia por 6 a 5 (no tempo normal e prorrogação) e a Tchecoslováquia por 2 a 1, o Brasil chegou às semifinais da Copa do Mundo FIFA de 1938 para encarar a “Azzurra”. A curiosidade do confronto diz respeito ao fato de o técnico Ademar Pimenta não escalar Leônidas da Silva, artilheiro e principal craque do torneio. O treinador alegou contusão, mas o atleta tinha condições de jogo.

E para piorar, quando o Brasil já perdia por 1 a 0, Domingos da Guia agrediu o artilheiro Piola dentro da área e cedeu um pênalti aos rivais. No fim do jogo, Romeu ainda diminuiu para a seleção brasileira, mas já era tarde: os italianos venceram por 2 a 1.
Na decisão do terceiro lugar, o Brasil, após sair perdendo para a Suécia por 2 a 0, virou o placar para 4 a 2. O atacante Leônidas da Silva marcou sete gols durante o torneio e foi o artilheiro do Mundial de 1938, na França.

Com dois gols de Colaussi e mais dois de Piola — o melhor jogador italiano no torneio —, a “Azzurra” ganhou na decisão da Hungria por 4 a 2 e se tornou a primeira seleção a levantar a Taça Jules Rimet duas vezes.





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