• Rio Branco, 21/05/2026
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Na Amazônia acreana, estudar muitas vezes começa antes do amanhecer

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Na Amazônia acreana, estudar muitas vezes começa antes do amanhecer

Em meio aos desafios da Amazônia acreana, onde rios, lama, estiagem e longas distâncias fazem parte da rotina diária, a educação chega a lugares em que muitos acreditariam ser impossível manter uma escola funcionando.


Escola Ena Oliveira de Paula atende estudantes da alfabetização ao ensino médio na zona rural de Rio Branco. Foto: Mardilson Gomes/SEE

A cerca de 23 quilômetros da zona urbana de Rio Branco, a Escola Ena Oliveira de Paula demonstra o esforço de professores, alunos e do governo do Acre para garantir que nenhum estudante fique sem acesso ao ensino.


A unidade atende estudantes da alfabetização ao ensino médio, em turmas multisseriadas. Atualmente, a escola possui 26 alunos e funciona em uma realidade muito diferente daquela encontrada nos centros urbanos.


Escola Ena Oliveira de Paula conta com energia elétrica, internet e dormitórios para os professores. Foto: Mardilson Gomes/SEE

Para chegar até a sala de aula, muitos estudantes enfrentam viagens diárias de barco que podem durar até 1h30. No período do verão amazônico, quando o rio baixa e a navegação se torna ainda mais difícil, o trajeto pode ultrapassar 1h45. Grande parte dos alunos sai do porto localizado no Ramal Polo Benfica e inicia a rotina de madrugada.


Letícia Larissa Bandeira, de 7 anos, acorda às 4h da manhã para conseguir chegar à escola. Mesmo tão nova, entende a importância dos estudos. “Mesmo acordando cedo, eu gosto de vir para a escola porque aqui eu aprendo e brinco com meus amigos”.


Pequena Letícia Larissa acorda às 4h da manhã para conseguir chegar à escola. Foto: Mardilson Gomes/SEE

A rotina também exige esforço dos educadores, que todos os dias enfrentam percursos pelos rios amazônicos para garantir que as aulas sejam ministradas. O professor Raimundo do Nascimento, que atua na escola desde 2018, explica que o trabalho na educação do campo exige dedicação além da função em sala.


“A gente vê alunos realizando sonhos e entrando na faculdade. Isso é gratificante”, afirma o professor Raimundo. Foto: Mardilson Gomes/SEE

“Enquanto a gente reclama que sai de casa às 5h30 da manhã, há alunos que saem ainda mais cedo para chegar até a escola. Então a gente vê que está levando desenvolvimento para essas pessoas. Isso é muito gratificante”, afirma.


Segundo Raimundo, a realidade das escolas rurais amazônicas exige versatilidade dos educadores. “Já temos ex-alunos que hoje são dentistas, engenheiros e universitários. Inclusive temos um aluno cursando engenharia elétrica, que estudou aqui desde a alfabetização”, destaca.


‘Retorno vem quando vemos resultados’


Responsável pela escola e docentes das turmas do 1º ao 5º ano, a professora Helena Milhomens possui, em seu currículo, mais de duas décadas dedicadas à educação do campo. E relembra que, antes da chegada do transporte escolar, muitos estudantes iam às aulas a cavalo, a pé e até montados em bois.


“O maior desafio ainda é a locomoção, mas o retorno vem quando vemos os alunos aprendendo”, destaca Helena Milhomens. Foto: Mardilson Gomes/SEE

“O maior desafio da educação do campo ainda é a locomoção. No verão, muitas vezes precisamos descer do barco para empurrar. Mas o retorno vem quando vemos o resultado do ensino aplicado aos alunos”, conta.


Muitos estudantes iniciam a rotina ainda de madrugada para conseguir chegar à escola. Foto: Mardilson Gomes/SEE

Além do acesso por rio, a escola enfrenta desafios típicos da região amazônica, como as mudanças climáticas, que afetam diretamente o deslocamento, o isolamento geográfico e a dificuldade logística.


Ainda assim, a unidade conta com estrutura que possibilita o funcionamento das atividades, incluindo energia elétrica, água encanada, internet e dormitórios para os professores que moram longe da comunidade.


Professor Alessandro de Oliveira destaca os desafios e as experiências vividas na educação rural amazônica. Foto: Mardilson Gomes/SEE

O professor Alessandro de Oliveira, que atua na área de Ciências Humanas, afirma que a natureza faz parte da rotina de quem trabalha na educação rural amazônica.


“As escolas rurais têm a peculiaridade do acesso. Dependemos muito do clima. Às vezes o rio está cheio, às vezes está seco. Mas existe também o contato com a natureza, com os animais, e isso faz parte da nossa vivência”, explica.


‘A escola ajuda muito a gente’


Os alunos também vivem uma rotina intensa para manter os estudos. O estudante Lucas da Silva, de 13 anos, acorda às 5h da manhã para ajudar o avô nas tarefas da propriedade onde vivem antes de seguir para a escola. “Eu acordo cedo, vou tirar leite da vaca, depois tomo banho e me arrumo para ir para a escola”, conta.


Em cada viagem de barco, estudantes e professores carregam sonhos, desafios e esperança. Foto: Mardilson Gomes/SEE

Lucas leva entre 35 e 40 minutos para chegar até a unidade e diz que, mesmo com a rotina cansativa, gosta do ambiente escolar, principalmente da convivência com os colegas e das refeições servidas durante o recreio.


Quando fala sobre o futuro, ainda não tem certeza da profissão que deseja seguir, mas sabe da importância de continuar estudando. “Eu quero terminar meus estudos. A escola ajuda muito a gente”, resume.


Educação do campo transforma histórias e aproxima oportunidades na Amazônia acreana. Foto: Mardilson Gomes/SEE

Mesmo diante das dificuldades, os estudantes reconhecem o valor do ensino oferecido na unidade. A aluna Naiara Monteiro dos Carros, do 3º ano do ensino médio, acorda às 4h da manhã para conseguir estudar. Pretende fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e sonha cursar Agronomia.


“Eu acho que aqui vale a pena. É pouco aluno e os professores dão atenção para a gente. Às vezes ensinam e reensinam até a gente aprender”, afirma.






 

































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