Harvard divulga estudo sobre pior hábito noturno para saúde do coração
O cardiologista Fabrício da Silva analisou os dados do estudo de Harvard e explicou como o hábito noturno pode aumentar os riscos ao coração
nopparit/Getty Images A saúde do coração foi tema de um estudo publicado em janeiro pelo Journal of the American Heart Association, divulgado recentemente pela universidade de Harvard. A pesquisa apontou que o hábito de dormir muito tarde pode comprometer a saúde cardiovascular e aumentar o risco de sofrer um primeiro ataque cardíaco ou derrame.
Entenda
- e acordo com o estudo do Journal of the American Heart Association, pessoas que costumam ficar acordadas até tarde tendem a dormir menos e apresentar hábitos associados que prejudicam a saúde do coração.
- Os pesquisadores analisaram dados de cerca de 300 mil adultos para entender como os padrões de sono e vigília influenciavam a saúde cardiovascular. Aproximadamente 8% dos participantes se definiam como “noturnos”, relatando horários de dormir próximos das 2h da manhã; 24% se identificaram como “matutinos”; enquanto 67% foram classificados como “intermediários”.
- Com base na métrica Life’s Essential 8, da American Heart Association, os pesquisadores avaliaram os hábitos e indicadores de saúde de cada grupo. Na comparação entre pessoas de cronotipo intermediário e os indivíduos noturnos, foi observada uma prevalência 79% maior de pontuações ruins para a saúde cardiovascular entre aqueles que dormiam mais tarde.
- O grupo “coruja” também apresentou risco 16% maior de sofrer um primeiro ataque cardíaco ou derrame durante um período médio de acompanhamento de quase 14 anos.
- Já os participantes matutinos apresentaram prevalência 5% menor de pontuações ruins relacionadas à saúde do coração.
- Apesar dos dados preocupantes, os pesquisadores ressaltaram que mesmo pessoas com cronotipo noturno podem reduzir os riscos cardiovasculares ao adotar hábitos mais saudáveis, como dormir mais horas, praticar atividade física e evitar o tabagismo.
Cardiologista analisa estudo de Harvard
Buscando entender mais profundamente os resultados da pesquisa, a coluna Claudia Meireles conversou com o cardiologista Fabrício Da Silva, da Amplexus Saúde Especializada. Segundo ele, o hábito de dormir tarde pode estar relacionado a um desalinhamento biológico que afeta diferentes sistemas do organismo — não apenas o cardiovascular.
“O organismo humano foi programado para funcionar em sincronia com os ciclos de luz e escuridão. Quando se dorme muito tarde de forma frequente, especialmente em horários incompatíveis com a rotina natural do corpo, ocorre um desequilíbrio que pode aumentar processos inflamatórios, alterar a pressão arterial, prejudicar o metabolismo da glicose, favorecer o ganho de peso e elevar os níveis de estresse hormonal”, alerta.

No sistema cardiovascular, o especialista afirma que pessoas com cronotipo noturno tendem a apresentar maior ativação do sistema nervoso simpático, responsável pelo estado de alerta.
“Isso faz com que o organismo permaneça em um estado de hipervigilância por mais tempo, aumentando a liberação de cortisol e adrenalina”, destaca Fabrício da Silva.
Na prática, esse excesso hormonal pode favorecer o aumento da pressão arterial durante a noite, elevar a frequência cardíaca e reduzir a recuperação cardiovascular durante o sono.
“Além disso, indivíduos que dormem tarde costumam ter hábitos associados que também impactam negativamente o coração, como sedentarismo, alimentação irregular, maior consumo de ultraprocessados, álcool e privação de sono durante os dias úteis”, esclarece.
Risco de derrame e ataque cardíaco
O estudo divulgado por Harvard também chamou atenção ao apontar que o hábito de passar a madrugada acordado pode aumentar em 16% o risco de infarto ou derrame. Segundo Fabrício, essa associação acontece porque o sono inadequado ou desalinhado interfere em mecanismos essenciais para a saúde vascular.
“Dormir tarde com frequência está relacionado a maior resistência à insulina, inflamação crônica e disfunção do endotélio, a camada interna dos vasos sanguíneos”, explica.

Além disso, o cardiologista ressalta que muitas dessas pessoas acabam dormindo menos horas do que o necessário por conta das demandas sociais e profissionais.
“Esse déficit de sono acumulado aumenta o risco de obesidade, diabetes e aterosclerose, fatores diretamente ligados ao infarto e ao AVC”, afirma.
Saiba como minimizar os riscos
Embora o hábito de dormir tarde possa ter relação com fatores genéticos e com o cronotipo de pessoas que se sentem mais produtivas durante a noite, Fabrício destaca que algumas mudanças de rotina ajudam a reduzir os impactos cardiovasculares.
“Nem sempre é possível mudar completamente o cronotipo, mas algumas estratégias ajudam bastante a diminuir os impactos cardiovasculares. O mais importante é manter regularidade no sono, evitando grandes variações entre dias úteis e fins de semana”, reforça.
A exposição ao sol pela manhã; horários regulares para dormir; evitar cafeína à noite e reduzir estímulos luminosos no período noturno também estão entre as estratégias citadas pelo especialista para ajudar o organismo a regular o ritmo circadiano.
“Mais importante do que forçar uma mudança radical é criar hábitos consistentes que reduzam o impacto cardiovascular desse desalinhamento biológico”, aponta.O cardiologista também reforça importância de praticar atividade física regularmente e seguir uma alimentação equilibrada. “O acompanhamento médico também pode ser importante, especialmente para monitorar pressão arterial, colesterol, glicemia e outros fatores de risco cardiovascular”, afirma Fabrício da Silva.





COMENTÁRIOS